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A CRUCIFICAÇÃO

Alfredo de Seicheles, João, Tarcísio e Clélio, 8 de abril de 2025.


Após fugir a mando de Jesus daquele Jardim, onde Ele acabara de ser preso, João se

despede de Pedro e vai ao encontro de Maria, que estava em Jerusalém, para informar-lhe do

ocorrido e prepará-la para o julgamento e acompanhamento de Cristo nas últimas horas.

Rapidamente, João e Maria se direcionaram para o Pretório de Pilatos e aguardavam,

em meio à multidão, alguma resposta acerca da prisão de Jesus. Ambos conseguiam, reservada e

intimamente, rezando com fé absurdamente gigantesca, resguardar-se daquele meio social que

gritava e pedia pela condenação de Jesus.

O julgamento era de resultado certo e Jesus estava condenado.

As lágrimas de Maria davam a ela destaque, com o que ficou muitíssimo preocupado

João, quem, a todo instante, pedia a ela calma e explicava que Jesus já havia anunciado e

aceitado todos aqueles fatos, por mais doloridos com que fossem.

Cada palavra de João deixava-a ainda pior diante da impotência e injustiça, porém.

Quando Jesus saiu do Pretório viu uma multidão de pessoas cercadas por centenas de

soldados romanos fortemente armados. Embora os selvagens fossem em maior número e som,

os quais pediam a morte mais dolorida possível ao Filho de Deus, havia pessoas comovidas com

a situação e tantos seguidores de Cristo tentando, de alguma forma, dar-lhe algum conforto

durante a passagem pela estreita via jerosomilitano e atentando contra os soldados.

Jesus já estava com a cruz em seus ombros. O que Ele sozinho carregou, seis soldados

foram necessários para colocá-la sob Seus ombros.

Não bastasse isso, em sua cabeça estava uma coroa espinhosa, cujos espinhos invadiam

a pele com agressividade, atingindo a testa e a sobrancelha. Qualquer movimento brusco, a

coroa adentrava mais em seu corpo e se aproximava muito dos olhos. Vez ou outra uma pessoa

furiosa conseguia dar-lhe um tapa, tentando afundar o objeto na face do Cristo.

Segurando a Cruz com as duas mãos e apoiando-a no ombro esquerdo, Jesus estava

com o rosto desconfigurado, reflexos de todas as torturas ocorridas dentro do Pretório romano

por soldados corruptíveis.

Eram tantos os hematomas e ferimentos que não se via os traços físicos Dele.

Sua esclera estava avermelhada pela quantidade de sangue que inundava os olhos.

Os pelos do rosto estavam enxercados de sangue.

A mandíbula parecia estar desprendida da arcada.

Seus braços, costas e pernas estavam açoitadas em formato entrelaçado, demonstrando

que o chicoteamento partiu de todos os lados.

Eram quatro os soldados que acompanhariam Jesus no caminho até a Gólgota: dois

soldados a frente, com espadas em mãos, ambos bastante odiosos; e dois centuriões, Tarcísio e

Clélio, ao fundo, os quais eram conhecidos no exercício romano pela impiedade cristã.

Contudo, a sessão de tortura prévia que eles acompanharam e realizaram, fizeram-no

ficar reflexivos. Isto porque, apesar de todas agressões e indignidades perpetradas, Jesus não

expressou nenhuma retorsão, salvo quando, chicoteado, pois as pontas cortantes da corda

atingiram-lhe a pele, abrindo-a, fazendo respingar sangue nos soldados violentadores e abrir

ferimentos expostos nas costas. A cada chibatada Jesus gritava.

Acima dessa calmaria, os centuriões perceberam serenidade em Jesus.

Ele não julgava, não ofendia, não reprimia. Ao revés, Ele os acolhia com os olhos.

Tarcísio e Clélio enxergavam um olhar de acolhimento não só para com as condutas

violentadoras daquela sessão, mas, especialmente, de toda uma vida enraizada de sombras,

como se Aquele olhar os incentivasse a buscar outro caminho e seguir outra vida.

Ensina-nos a Espiritualidade que Jesus estava em estado mediúnico-meditativo desde a

Sua última oração no Jardim de Getsêmani antes da traição. Portanto, o Espírito Jesuíta já estava

em vinculação direta à Deus, aguardando o total desate do perispírito para o desencarne.

Durante todo o caminho, Ele carregou a cruz sozinho, e João e Maria tentavam, a todo

instante, aproximarem-se da linha de frente de pessoas que podiam tocar ou falar mais próximo

de Jesus ou ajudá-lo.

O trajeto foi marcado por insultos, cuspes, tapas. Jesus manteve-se silente.

Tarcísio, detrás, acompanhava todos os movimentos Dele e das pessoas, bastante

reflexivo e em uma guerra pessoal interna. Ao seu lado, Clélio, mostrava-se com medo das

pessoas afetas à Jesus, imaginando que elas ultrapassariam o cerco a qualquer momento para

matá-los.

Estresse, gritaria, violência.

Na última curva rumando o fim da via e com vistas para as cruzes em pé, Maria

conseguiu estender a mão para Jesus e este, ainda com a cruz apoiada no ombro esquerdo,

estendeu-lhe a mão direita, tocando-a carinhosamente.

Maria olhou diretamente para Jesus, e Ele para ela.

O fitar dos olhos era mais do que enxergar um ao outro.

O tocar de mãos os levou, por segundos como se uma infinidade de tempo fosse, para

um passado em que Maria enxergava Jesus enquanto recém-nascido aprendendo a falar,

caminhar; criança correndo pela casa, pelo campo e brincando; jovem meditando, ensinando

caridade e amor ao próximo, e ajudando José nos afazeres; adulto peregrinando e se fazendo

presente na vida das pessoas; na despedida, antes da última ceia, quando a visitou, beijou o rosto

e lhe agradeceu por todos os benditos da vida encarnada passando uma tarde toda com ela.

Logo esse entrelaçar de mãos e dedos foi interrompido por Clélio que, empurrando

Jesus, ordenou que Ele continuasse o percurso porque as pessoas poderiam quebrar a proteção

dos soldados. O empurrão, todavia, derrubou-o. Caído de joelhos, Jesus grita com o peso da

cruz recaindo ainda mais sobre si e essa intensidade foi tão grande a ponto de um urro calar a

todos.

Acompanhando a dor, Maria gritou e queria invadir o cerco para ajudar o Filho a

levantar-se, tendo sido impedida por Tarcísio e João que a resguardou não só dos soldados, mas,

principalmente, de uma revolta da multidão.

Tarcísio levou as mãos aos ouvidos face o grito e começou a chorar silenciosamente,

ciente de que a situação havia ultrapassado a legalidade.

Secando as próprias lágrimas, o centurião repreende o coirmão legionário Clélio e

determina que os homens ajudassem Jesus a levantar a cruz para prosseguimento e finalização

daquele espetáculo romano-fariseu.

Dez homens ajudam Jesus que, já sem forças físicas, olhando para Tarcísio, disse-lhe:

“Obrigado, soldado. Agora, de Roma. Mais tardar, de Deus”, porém, Tarcísio não ouviu.

Guiado e chegando até o local da crucificação, com cuidado e sentindo muitas dores

físicas, Jesus deitou-se sobre ela colocando as mãos e os pés, um sobre o outro, nas

extremidades da madeira. Enquanto isso, Maria e João caminharam para o ponto do Monte de

Gólgota para que pudessem acompanhar a passagem distantes daquelas pessoas que pediam a

morte.

Ensina-nos a Espiritualidade que Maria e João pareciam não conseguir enxergar Jesus

como se houvesse, fluidicamente, uma proteção sobre Ele. Apesar dessa cortina fluída tampar os

olhos, todo o público ouviu os pregos ferirem a mão esquerda de Jesus; outros dois a mão

direita; outros dois no pé esquerdo; outros dois no pé direito sobre o esquerdo.

Nesse momento, dois Espíritos das Altas Moradas fizeram-se presente ao lado de Maria,

dando-lhe suporte emocional, espiritual e físico para sentir e experimentar Jesus, o Filho

Amado.

“Deus que me deu a oportunidade de ter Jesus em meu ventre, bendito seja Ele,

protege-o desse suplício”, dizia Maria enquanto os Espíritos a abraçavam.

Tão logo pregaram-no na cruz, os dez soldados, acompanhados por Tarcísio e Clélio à

distância, ergueram-na com ajuda de cordas grossas e, outra vez, com o corpo fisicamente

ajustando-se à gravidade, outro grito pode ser ouvido.

Jesus permaneceu com a cabeça baixa por alguns minutos.

Os soldados olhavam para Jesus e brincavam, entre si, questionando a autoridade divina

de Jesus e o quão aquele homem parecia fraco diante de tudo o que dizia.

Tarcísio chorava silenciosamente. Clélio estava estado pensativo nebuloso, muito

odioso com toda a situação ter perdido controle organizacional do exército.

De outro lado, muitas pessoas comemoravam e esperavam uma morte rápida.

Maria já estava a rezar sucessivas preces. A mulher rezou tantas orações que, em

números, significaram tantos dias Jesus esteve encarnado.

João aproveitou desta oportunidade para ensinar-lhe a reza poética que Jesus os havia

ensinado na Última Ceia, e ambos a repetiram sucessivamente.

Emocionada com a declamação de amor, Maria olhou para Jesus e observou que Ele

havia levantado a cabeça para olhá-la.

Maria, sem emitir nenhum som, apenas com os lábios, fiz Jesus: “Obrigada!”, e Jesus a

respondeu sorrindo.

Aos poucos, a neblina fluídica deixaria de existir e ele passava a transparecer. E Ele,

com a cabeça virada mais à direita, passou a olhar exclusivamente para Maria e João.

João dizia com a voz trêmula: “Mãe, segura-te, roga por Jesus. Preciso da Senhora

agora e na hora da passagem Dele”.

Maria o respondeu: “João, meu filho, eu rogo por Jesus desde a Promessa e o farei até

o nosso encontro fraterno. Manter-me-ei firme sinto Deus me segurar”.

E as palavras se escreveram no tempo da Verdade.

O crucificado à esquerda de Jesus, desencarnou.

O crucificado à direita, desencarnou.

Jesus não padecia.

As horas passavam, os presentes iam embora.

Tarcísio, o soldado perseguidor, já havia, naturalmente, elevado seu espírito à Deus.

Todo o caminho do Precatório até o local da Crucificação mostrou-lhe que a voz dos pobres era

verdade e que ali não era um profanador quem havia sido julgado, e, sim, o próprio Filho de

Deus.

Dado momento, Jesus olha para Tarcísio e o soldado cai de joelhos, tira o capacete e o

joga para longe dizendo: “Perdoa-me Mestre, eu cumpri as ordens dos homens; dê-me uma só

ordem e eu a cumprirei imediatamente; peço misericórdia por meu julgamento e por meu ato.

Perdoa-me, Mestre”. Jesus não conseguiu responder, mas, o sentimento de Tarcísio, a partir do

olhar Dele, entregou-lhe mais do que a resposta, entregou-lhe a própria libertação.

Tarcísio chorava copiosamente e disse: “Homens, levem-me para julgamento. Não sou

um homem de Roma, sou um homem de Deus”. Mais tarde, o centurião viria a sofrer o processo

de “decimatio” e foi ele o escolhido, entre os dez, para a punição e pagou, com a própria vida,

mediante garrote, a deserção.

Clélio, com receio das represálias do Império pela conduta de Tarcísio, e ainda

assustado com os acontecimentos durante o percurso, determina que fosse chamado um soldado

do público para matar Jesus.

Sabendo disto, Jesus volta o olhar para os Céus e em seguida para Maria.

Mãe e Filho conseguiam traduzir, pelos olhos, palavras que apenas corações interligados

pelo sangue podiam entender e sentir.

Naquele silêncio, Maria diz: “Jesus, você já cumpriu sua missão. Siga, meu filho. Teu

Pai te aguarda, como eu te aguardarei pelos anos restantes de minha vida. Eu o amo.”.

Terminada a fala, embora Tarcísio tenha tentado impedir o soldado, Clélio insistiu fosse

a ordem executada e o soldado espetou a ponta de lança ao lado esquerdo de Jesus.

Jesus, com o último suspiro, grita. Não tão alto quanto antes. O ar já era rarefeito.

O suficiente para que o elo perispital fosse desatado e Jesus ascendesse aos céus.

Maria quase desmaia e é segurada por João.

Pedro apareceu nesse exato momento para retirá-los, às pressas, daquele local e os levá-

los para outro, mais seguro, pois todos os apóstolos estavam sendo perseguidos pelas

autoridades religiosas e romanas.

Todos se protegeram porque, no terceiro dia, materializou-se Jesus para os apóstolos e

se iniciava ali, uma nova Era das Escrituras.


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