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Nossa liberdade venceu!

Atualizado: 8 de out. de 2025

Francisco, o Espírito Preto da Porteira da Senzala 

13 de fevereiro de 2025


Certa vez, um casal de brancos, recém-chegados à comunidade, comprou uma fazenda onde havia duzentos negros. Eram boas pessoas. 

Essa fazenda era vizinha de outra, do Senhor Baltazar, negro conhecido na região como “Sr. Czar”, onde outros duzentos coirmãos estavam, todos escravizados.

Uma Senhora Princesa uma lei escreveu e a liberdade ela prometeu.

A lei ela assinou e o tempo mudou. 

Outro mundo se criou na fazenda dos brancos: comida, água e o início de um relacionamento fraterno, respeitoso e com exercício de liberdade.

Na fazenda do Czar, os negros diziam: “Do lado dos brancos, tem felicidade, por que não nos deixa ir?”. Respondia Baltazar: “Se terras me der, liberdade te dou”.

Sempre pensei: “Vou trabalhar e minha liberdade conquistar. Mas com que dinheiro se o Czar não nos pagava?”.

Vi muito morto que estava vivo, e muito vivo que estava morto.

Não havia vida. Não havia alegria.

Do lado de lá, nos brancos, cada negro um sorriso dava. 

Para nós o ato de sorrir era muito, porque nós não tínhamos nada.

No marasmo da esperança, surgiram três crianças: Flor, Enrico e Tito.

Flor era a maior. O Enrico o do meio. O Tito o menor.

Flor era amor. Enrico o aguerrido. Tito o bendito.

Numa noite, os bichos gritaram. Eram os meninos que o arame da fazenda eles quebraram.

Quem olhava nos arbustos três crianças podia ver, o amor tinha medo, o aguerrido ia na frente, o bendito era o grito. 

Na mão no da frente, havia um bastão. O bastão fazia barulho. O barulho era latente. Era igual a arma do Czar que matava gente.

O aguerrido salvou um negro, que mais mancava de medo, mas, claro, que coragem podia ter?

No dia seguinte a contagem foi feita. Faltava um. Ou fugiu. Ou morreu. Que sorte era a dele que, de um jeito ou de outro, viveu. Viveu a passagem, viveu a liberdade.

O senhor Czar nos perguntou: “Cadê o capenga?”

Ninguém disse nada. Como nada ninguém disse, todo mundo apanhou. 

E o mais velho de nós, o Dendeu, o Czar enforcou.

No dia seguinte, as três crianças apareçam para salvar mais dois negros. 

Nenhum podia correr, mas, os cavalos deles, sim, podia socorrer.

O dia nasceu, o Czar apareceu.

Percebendo dois negros a menos, gritou: “Que diabo aconteceu?”

Outra vez, ninguém respondeu.

Uma senhora, a escrava mais antiga, ficou aflita e queria responder.

Em meio ao silêncio, o Espírito Manoel se fez presente.

E lhe sussurrou: “Irmã, não diga, se você responder, é você quem vai morrer”.

Essa senhora, era a minha mãe. Para a todos proteger, disse logo o porquê.

Um tiro e o silêncio venceu.

A preta caiu e não mais viveu. 

E eu, órfão, precisava continuar.

De longe, as três crianças no arbusto presenciaram tudo. 

E o do meio disse logo: “Acabou, essa guerra há de começar!”

Durante a noite, as crianças voltaram a aparecer. 

Reuniram os negros e disseram que, do lado de lá, todos têm o direito de viver. 

Com as histórias contadas, os homens e as mulheres se uniram e animaram.

Todo o discurso das crianças era acompanhado pelo Espírito Manoel. 

Quando a gente ele viu, perguntamos: “Que demônio é tu que apareceu? Que Espírito é esse que a vida do Dendeu não defendeu?”

E o Espírito, na frente das crianças, foi logo dizendo: “Irmãos, a conduta do homem eu não posso interferir, não. Mas fiquem calmos porque nada daquilo foi em vão”. 

 Explicou, ainda, que, naquela vida de escravidão estava para acabar, porque em nosso contrato celestial estava escrito: “A liberdade venceu!”.

Logo desapareceu, os meninos saíram correndo quando o Czar, ao fundo, disparou um tiro para cima. Era o prenúncio da ferra. 

O tempo passou. E a gente se desolou. “Cadê o futuro que nos prometeram?”

Era o que precisava. Os meninos apareceram!

E todos nós fomos com eles. Fomos em debandada.

A partir dali erámos da fazenda dos brancos. 

Baltazar, ao notar a fuga, foi até os brancos no dia seguinte e perguntou: “Cadê os negros que você levou?”. O fazendeiro branco respondeu: “Daqui nenhum preto vai se arredar, porque eu mesmo vou lhes salvar”. Baltazar, enfurecido, prometeu: “Pode ficar tranquilo, a sua vez vai chegar”.

Passou poucos dias, em uma manhã qualquer, um som de correria se ouvia.

Todos pararam e ao olhar para as matas ao torno daquele campo aberto, perceberam que era o bando de Baltazar que só tinha dado uma ordem a todos: “- Quem respirar, vocês devem matar!”.

Foi o maior massacre da região até os dias atuais. Tinha cabeça em todo lugar, menos em cima do pescoço. Dos quatrocentos que éramos, metade a gente ficou. Alguns fugiram, a maioria lutou. 

Era morte de lá, de cá.

De todos os tiros, o mais barulhento foi o de Bartholomeu. 

Que com um tiro deu, e o Baltazar ele acometeu. 

O Czar caiu. 

Logo em seguida, Bartholomeu acertou a Czarina: a Senhora Joaquina.

Ela sim, ele matou. 

Baltazar, no chão, gritou. 

E antes do último tiro que o ceifou, prometeu: “Quem aqui está, eu ei de odiar, nas suas próximas vidas vocês podem se preocupar. Eu vou lhes visitar”.

O tiro de Bartholomeu, que Baltazar silenciou, foi o responsável por fazer a terra estremecer.

Sobreviveram poucos negros e nenhum branco. 

Quem sobreviveu, se reergueu. 

O Espírito estava certo: a liberdade venceu.

Se perguntarem onde eu queria estar, eu responderia: “Com você!”.

Eu sei o porquê. 

Porque a partir dali eu nunca mais sofri. 

Só sorri.

E vivi.



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