O chamamento de Mateus: Siga-me!
- Bons Espiritas - Grupo de Estudos Manoel dos Ramos

- 20 de mar. de 2025
- 6 min de leitura

Tadeu, Franca/SP, 2025
Levi era um cobrador de impostos que trabalhava para o Império Romano e mostrava-se exemplarmente centrado, exímio funcionário público e, a par de suas qualidades pessoais, como a racionalidade e objetividade, tinha prazer em calcular e realizar apuramentos contábeis-financeiros dos impostos e taxas que os moradores de Cafarnaum deviam.
A responsabilidade tributária de Levi era gigantesca porque se responsabilizava por cobrar impostos sobre a venda e a compra de qualquer produto que adentrasse nos centros de comercialização. Ele ainda cobrava impostos sobre a produtividade agrária, o que fazia o Império Romano tomar, para si, de 20 a 25% da produção – podendo o imposto ser pago em produtos ou dinheiro. Ainda, cobrava, seguindo as leis, um denário para as mulheres e os homens, dos 12 e 14 anos, respectivamente, até o limite de 65 anos. E por fim, cobrava impostos sobre propriedades – 1% sobre o valor real.
Comparativamente, vinte denários correspondiam a uma moeda de ouro. Os soldados romanos, que eram os mais pobres entre os romanos, recebiam em média 225 denários por ano, significando menos de 20 denários por mês. Uma porção de trigo ou três de cevada custava um denário.
As cobranças eram injustas e entre os povos pobres, porque uma moeda de prata era equivalente a um dia de salário do trabalhador. Dentro desse contexto, os publicanos eram odiados pelo povo.
Naquele tempo já se ouvia falar de Jesus e dos seis apóstolos que o seguiam. Jesus, além das peregrinações, pregava, frequentava templos judaicos e frequentava a casa daqueles que o convidavam. Todos esses eventos tornaram Jesus conhecido não só para o povo como para o Império e os líderes religiosos.
Enquanto os aqueles não se importavam com os feitos jesuíticos, estes, sim, preocupavam-se com os feitos daquele que se intitulava o Início dos Novos Tempos.
Levi, diferentemente da cúpula organizacional de Roma, perguntava-se o porquê de as pessoas seguirem um Messias prometido, sobre quem não havia comprovação de ser, lançando mão de tudo – patrimônio, relacionamentos e conquistas pessoais.
Certa vez, após o fechamento financeiro do dia, Levi percebeu que muitos moradores de Cafarnaum não estavam regulares com as visitas no posto de coleta, o que gerava, nele, menos captação de tributos para o Império, e para os devedores um aumento grandioso da dívida e, consequentemente, uma situação difícil perante a lei.
Levi, então, determina ao centurião que com ele trabalhava buscasse saber onde estavam os devedores e, sem precisar se aprofundar, o centurião lhe respondeu que muitas pessoas estavam seguindo o Cristo e por isso o posto estava bastante vazio. Nada respondeu Levi que, com aquilo permaneceu quieto e durante toda a noite buscou sentido lógico.
No dia seguinte, Jesus estava sentado próximo ao ponto de coleta brincando com crianças. Os apóstolos sentados fitavam o publicano. Levi, com medo, entra mais rapidamente no posto de coleta e inicia o dia de trabalho. Contudo, a cada novo morador local que prestaria contas dos denários, Levi olhava para fora do posto e via Jesus o observando. Numa das vezes, já em pé, Jesus piscou um dos olhos para ele e sorriu.
Assustado, Levi fechou a janela e voltou a concentrar-se no trabalho.
Finalizado o serviço, mesmo que não houvesse ninguém o aguardando do lado de fora do posto, foi embora rapidamente para a sua casa e voltou a pensar em Jesus sorrindo para ele.
“Quem era o Homem, dentre tantos outros que o odiavam, sorria para ele?” pensou o coletor em sua cama, enquanto olhava para o teto de seu quarto. “Quem consegue encontrar uma gota de amor em um mar de ódio?”, disse para si já dormindo.
No dia seguinte, Levi faltou ao trabalho e buscou por Jesus, encontrando-o à algumas vielas dali, em cima de um morro de terra, ensinando parábolas aos ouvintes. À frente do Mestre estavam os apóstolos, seguidos de várias pessoas, inclusive soldados romanos.
Todos, em silêncio, prestavam atenção no Senhor.
Levi, por um instante, deixou-se prestar atenção às palavras do Cristo e, entre todas as palavras ouvidas, a que mais lhe marcou foi: “Bem-aventurados aqueles que, escolhidos, seguem o chamado. Bem-aventurados os que, apossados, abdicam de tudo para seguir-me. Bem-aventurados aqueles que se utilizam da própria vida para exercer a caridade, o amor ao próximo e a benevolência ao outro. Meu pai, nessa encarnação, deu-me uma caixa. Nela, o que cabe, eu doo; o que não cabe, não aceito. E você, o que guarda em seus bolsos nesse momento? Se precisa do que guarda, use em seu benefício e de sua família. Se sobrar, doe. Se não precisar, doe. Doe àqueles que precisam. Propaguem o ato de doar aos doentes, pobres e descrentes da esperança. Primeiro, vocês trabalharão com pedras. Depois, com pedregulhos. Depois, com rochas. Sejam sementes dos Novos Tempos!”.
Finalizando a pregação, Jesus olhou diretamente para Levi que, ao fundo da multidão, estava perto de uma parede de ferro, escondendo-se. Achava que ali, diante das centenas de pessoas, não pudesse ser visto. Mas, Jesus o enxergou. Quando percebeu que foi achado, Levi, rapidamente, escondeu-se atrás da parede, encostou as costas nas paredes, respirou fundo e disse a si mesmo: “Ele é a resposta de tudo.”.
Aproveitando tudo o que ouviu, Levi colocou a mão nos bolsos e percebeu ter uma moeda de ouro.
Como já havia comido e comprado o que precisava para todo o mês, Levi entregou a moeda para uma criança que passava no local correndo. O menino, ao pegar a moeda, gritou: “Estou rico! Um louco me doou!”.
Levi foi embora reflexivo. Falava sozinho, com seus pensamentos. Queria explicações para o inexplicável: ele havia sido escolhido, faltando-lhe aceitar.
Passada a noite, Levi foi trabalhar e os centuriões queriam saber onde estava ele, pensando que algum dos moradores da cidade tivessem ceifado a vida do publicano. Levi os acalmou, explicou ter visitado o Messias e perguntou aos soldados da coleta: “Que sentido há nisto tudo? Que amor é este que eu sinto e que me faz transbordar?”. Os soldados, sem compreender, saíram da sala de coleta e o deixaram sozinho porque imaginavam que ele estava alcoolizado.
Do lado de fora, momentos depois, Jesus apareceu na porta da coleta, ao lado de Pedro, e direciona a palavra para o escolhido: “Aqui coletor de impostos, a minha contribuição ao Império de Roma”, enquanto Pedro entregava à Levi duas moedas de prata que haviam acabado de conseguir por doação.
Levi responde, gaguejando: “Senhores, esse dinheiro foi doado, não precisam dar ao Império. Não eram vocês, ontem, que pregavam a necessidade de doar o que não coubesse na caixa?”. Antes que Pedro tomasse a palavra, Jesus afirmou à Levi: “Coletor, se a tua função é coletar, colete; se a tua missão é seguir aquilo que eu digo, siga-me. Vamos embora amanhã, às 9h15, e te aguardarei no centro junto dos demais”.
Levi não conseguiu responder e o deixou ir embora sem dar-lhe uma resposta.
Ao sair, Pedro questionou: “Jesus, por que escolheu um coletor? Há tantos pescadores, pobres, doentes. O Senhor escolheu justo o mais odiado?”. Jesus não concordou: “Nas várias Moradas, há lugar para todos. Não há as distinções que você citou. O ódio é da Terra, não dos Céus. Os puros encontrarão guarida. E você, Pedro, quando parará de julgar o mérito alheio e se preocupará com o seu mérito?”. Pedro calou-se. De uma pergunta simples acabou recebendo uma advertência do Mestre.
Mais uma noite de sono de Levi transcorreu.
“Devo seguir o chamado de uma vida escolhida para mim ou viver a vida que eu escolhi? Se eu escolhi e estou onde quero estar, por que deveria seguir Aquele Homem? O que há Nele de tão maravilhoso que as palavras perdem sentido? As razões do hoje se perdem? E o que me fez doar uma moeda de ouro a uma pessoa qualquer? Quem é Ele?”, voltou o Coletor a questionar-se.
Pela manhã, antes do horário marcado, em uma viela, estava Levi.
Ele chutava algumas pedras, andava cabisbaixo, em conflito interno de sentimentos e pensamentos.
Aquela pedra chutada por último voltou ao seu pé.
Levi para e olha para frente.
Era Jesus quem estava ali e estende a mão para ele dizendo: “Levi, que agora se chamará Mateus, você não largará tudo para estar Comigo. Você estará no Caminho de Tudo! Eu mostrarei os caminhos do amor e da emoção. A maravilha não está em mim, está em executar as Leis dos Céus e focar o cumprimento no outro, amando-o e fazendo-o sentir-se amado; exercendo a caridade, fazendo o beneficiário aceitar e sentir a doação. Você que trabalhou tanto para o Império, seguindo as leis, é chegada a hora de tornar-se exemplo aos que te seguirão depois. O “tudo” que você pensou ter, acabará com o último ar dos pulmões e a última batida de teus corações. O “tudo” será dado após os Portões dos Céus. Siga-me, Mateus!”
Levi, abraçou fortemente Jesus e o ato de amor foi a resposta que Ele aguardava.
Enfim, escolheu-se o sétimo apóstolo.
Às 9h15 os apóstolos chegaram ao local marcado e viram Jesus com Levi.
Levi, envergonhado só levantou a mão para cumprimentá-los.
João e André se aproximaram para abraçá-lo e dar-lhes as boas-vindas. Todos os demais levantaram as mãos respondendo ao cumprimento. Pouco a pouco o jovem cobrador tomaria a posição de um discípulo exemplar e atento às lições do Mestre, d’onde sairiam grandes lições evangelistas.
Em voz alta, Jesus diz aos apóstolos: “Sigamos, os escolhidos têm pressa pelo aceite e o tempo urge de mudanças”, e seguiram para a próxima parada e em busca do próximo Apóstolo.



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