O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
- Bons Espiritas - Grupo de Estudos Manoel dos Ramos

- 9 de out. de 2025
- 8 min de leitura
Capítulo 2
Meu reino não é deste mundo
A vida futura - A realeza de Jesus - O ponto de vista - Instruções dos Espíritos: Uma realeza terrestre
1. Tendo Pilatos entrado de novo no palácio e feito vir Jesus à sua presença, perguntou lhe: “És o rei dos judeus?” — Respondeu-lhe Jesus: “Meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos teriam combatido para impedir que Eu caísse nas mãos dos judeus, mas o meu Reino ainda não é aqui.”
Disse-lhe então Pilatos: “Logo, Tu és rei?” — Jesus lhe respondeu: “Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim este mundo senão para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence à verdade escuta a minha voz.” (João, 18: 33, 36 e 37.)
A vida futura
2. Por essas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que Ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta que se destina a Humanidade e como devendo constituir objeto das principais preocupações do homem na Terra. Todas as suas máximas se reportam a esse grande princípio. Com efeito, sem a vida futura, a maior parte de seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. Por isso, os que não creem na vida futura, pensando que Ele apenas falava na vida presente, não os compreendem ou os consideram pueris.
Esse dogma pode ser considerado, portanto, como o ponto central do ensino do Cristo, razão pela qual está colocado num dos primeiros lugares à frente desta obra, pois deve ser o alvo de todos os homens. Só ele pode justificar as anomalias da vida terrena e harmonizar-se com a Justiça de Deus.
3. Os judeus tinham ideias muito imprecisas acerca da vida futura. Acreditavam nos anjos, considerando-os como seres privilegiados da Criação; não sabiam, porém, que os homens podem um dia tornar-se anjos e partilhar da felicidade angélica. Segundo eles, a observância das Leis de Deus era recompensada com os bens terrenos, a supremacia de sua nação e com as vitórias sobre os seus inimigos. As calamidades públicas e as derrotas eram o castigo da desobediência àquelas leis. Moisés não pudera dizer mais do que isso a um povo pastor e ignorante que precisava ser tocado, antes de tudo, pelas coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus viria lhe revelar que existe outro mundo, no qual a Justiça de Deus segue o seu curso. É esse o mundo que Ele promete aos que cumprem os mandamentos de Deus e onde os bons acharão sua recompensa. Esse mundo é o seu reino; lá Ele se encontra em toda a sua glória e para lá voltaria quando deixasse a Terra.
Jesus, porém, conformando seu ensino com o estado dos homens de sua época, não julgou conveniente dar-lhes luz completa, que os deslumbraria sem os esclarecer, pois não a compreenderiam. Limitou-se, de algum modo, a apresentar a vida futura apenas como um princípio, como uma Lei da Natureza, da qual ninguém pode escapar. Todo cristão, pois, crê necessariamente na vida futura, mas a ideia que muitos fazem dela é ainda vaga, incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos. Para grande número de pessoas, é apenas uma crença, sem nenhuma certeza absoluta; daí as dúvidas e mesmo a incredulidade.
O Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em vários outros, o ensino do Cristo, quando os homens se mostraram bastante maduros para compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais um simples artigo de fé, uma hipótese; torna-se uma realidade material demonstrada pelos fatos, pois são as testemunhas oculares que a descrevem em todas as suas fases e em todas as suas peripécias, de sorte que não somente a dúvida não é mais possível, como a inteligência mais vulgar é capaz de imaginá-la sob seu verdadeiro aspecto, como imagina um país quando lê a sua descrição detalhada. Ora, a descrição da vida futura é de tal forma circunstanciada, as condições de existência feliz ou infeliz dos que nela se encontram são tão racionais, que cada um aqui é obrigado a reconhecer que não pode ser de outro modo, e que ela representa realmente a Justiça de Deus.
A realeza de Jesus
4. Que o Reino de Jesus não é deste mundo todos compreendem, mas, também na Terra, não terá Ele uma realeza? Nem sempre o título de rei implica o exercício do poder temporal. Ele é dado, por consenso unânime, aos que, por seu gênio, se colocam em primeiro lugar em alguma atividade, dominando o seu século e influindo sobre o progresso da Humanidade. É nesse sentido que se diz: o rei ou príncipe dos filósofos, dos artistas, dos poetas, dos escritores etc. Essa realeza, que nasce do mérito pessoal, consagrada pela posteridade, não revela muitas vezes preponderância bem maior do que a conferida pela coroa real? A primeira é imperecível, enquanto a outra é joguete das vicissitudes; aquela é sempre abençoada pelas gerações futuras, ao passo que a outra muitas vezes é amaldiçoada. A realeza terrestre acaba com a vida; a realeza moral continua governando, sobretudo após a morte. Sob esse aspecto, Jesus não é um rei mais poderoso do que muitos potentados da Terra? Foi com razão, portanto, que Ele disse a Pilatos: “Sou rei, mas o meu Reino não é deste mundo”.
O ponto de vista
5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual eles encaram a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estação num país ingrato.
As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, pois sabe que são de curta duração e devem ser seguidas por um estado mais feliz. A morte nada mais terá de assustador; deixa de ser a porta que se abre para o nada para ser a porta da libertação que faculta ao exilado a entrada numa morada de felicidade e de paz. Sabendo que está num lugar temporário, e não definitivo, o homem encara as preocupações da vida com mais indiferença, resultando-lhe daí uma calma de espírito que abranda as suas amarguras.
Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Incerto quanto ao futuro, dá tudo ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da Terra, porta-se qual criança que nada mais vê além de seus brinquedos e tudo faz para os obter. A perda do menor deles causa lhe pungente mágoa; um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos que transformam sua existência numa angústia perpétua, infligindo-se a si próprio verdadeira tortura de todos os instantes. Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo assume ao seu redor vastas proporções. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, adquire aos seus olhos grande importância. Dá-se o mesmo com aquele que se encontra no interior de uma cidade: tudo lhe parece grande, tanto os homens que ocupam altas posições, como os monumentos. Contudo, se ele subir a uma montanha, homens e coisas lhe parecerão bem pequenos.
É o que acontece ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura: a Humanidade, assim como as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efêmeras que tanto se fatigam para conquistar um lugar que as elevará tão pouco e que por tão pouco tempo conservarão. A importância, pois, dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé que se tenha no futuro.
6. Dir-se-ia que se todos pensassem dessa maneira, tudo periclitaria na Terra, pois ninguém mais iria ocupar-se com as coisas terrenas. Não; o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar, e mesmo estando certo de que só por pouco tempo permanecerá no lugar em que se encontra, ainda assim cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe seja possível. Não existe ninguém que, encontrando um espinho debaixo de sua mão, não o retire, para não se picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas Leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência, que o pôs na Terra para tal fim. Simplesmente, aquele que considera o futuro não liga ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola de seus insucessos, pensando no destino que o aguarda.
Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma; é contra tais abusos que se previnem os que aplicam a si próprios estas palavras de Jesus: Meu Reino não é deste mundo.
Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma pequena soma; aquele que concentra seus pensamentos na vida terrena assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.
7. O Espiritismo alarga o pensamento e lhe rasga novos horizontes. Em vez dessa visão acanhada e mesquinha, que se concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra o único e frágil eixo do futuro eterno, o Espiritismo mostra que essa vida não passa de um elo no conjunto harmonioso e grandioso da obra do Criador. Mostra a solidariedade que religa todas as existências do mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo, dando assim uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de cada corpo torna os seres estranhos uns aos outros. Essa solidariedade entre as partes de um mesmo todo explica o que é inexplicável, desde que se considere apenas um ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender, razão pela qual Ele reservou esse conhecimento para mais tarde.
Instruções dos Espíritos
Uma realeza terrestre
8. Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de nosso Senhor: Meu Reino não é deste mundo? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o vazio dos reinos da Terra, se eu não o compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar a lição mais amarga, ela nem mesmo me acompanhou até o túmulo! Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no Reino dos céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! só então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que se buscam com tanta avidez na Terra!
Para se conquistar um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos pergunta o que fostes nem que posição ocupastes, mas o bem que fizestes e as lágrimas que enxugastes.
Ó Jesus, Tu o disseste, teu Reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer para chegar ao Céu e os degraus do trono não nos aproximam dele. A ele só conduzem os atalhos mais penosos da vida. Procurai, pois, o caminho do Céu, através das sarças e dos espinhos, e não por entre as flores.
Os homens correm atrás dos bens terrenos como se pudessem guardá-los para sempre. Aqui, porém, já não há ilusões. Logo eles percebem que se agarraram a uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que lhes podem abrir as portas do Céu.
Tende piedade dos que não ganharam o Reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces, pois a prece aproxima o homem do Altíssimo; é o traço de união entre o Céu e a Terra: não o esqueçais. – Uma rainha de França. (Le Havre, 1863.)




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