O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
- Bons Espiritas - Grupo de Estudos Manoel dos Ramos

- 12 de out. de 2025
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Capítulo 3 Há muitas moradas na casa de meu Pai Diferentes estados da alma na erraticidade - Diferentes categorias de mundos habitados - Destinação da Terra - Causa das misérias terrenas - Instruções dos Espíritos: Mundos inferiores e mundos superiores - Mundos de expiações e de provas - Mundos regeneradores - Progressão dos mundos. 1. Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, Eu já vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde Eu estiver, também aí estejais. (João, 14:1 a 3.) Diferentes estados da alma na erraticidade 2. A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no Espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, estações apropriadas ao seu adiantamento. Independente da diversidade dos mundos, essas palavras também podem ser entendidas como se referindo ao estado feliz ou infeliz do Espírito na erraticidade. Conforme se ache este mais ou menos depurado e desprendido dos laços materiais, o meio em que ele se encontre, o aspecto das coisas e as sensações que experimente variarão ao infinito. Enquanto uns não podem afastar-se da esfera onde viveram, outros se elevam e percorrem o espaço e os mundos; enquanto alguns Espíritos culpados vagueiam nas trevas, os bem-aventurados gozam de resplendente claridade e do espetáculo sublime do infinito; finalmente, enquanto o mau, atormentado de remorsos e pesares, muitas vezes isolado, sem consolação, separado dos objetos de sua afeição, geme sob a opressão dos sofrimentos morais, o justo, em convívio com aqueles a quem ama, frui as delícias de uma felicidade indizível. Essas, também, são outras tantas moradas, embora não circunscritas nem localizadas. Diferentes categorias de mundos habitados 3. Do ensino dado pelos Espíritos, resulta que as condições dos mundos são
muito diferentes, em relação ao grau de adiantamento ou de inferioridade de
seus habitantes. Entre eles há os em que estes últimos são ainda inferiores aos
da Terra, física e moralmente; outros, da mesma categoria que o nosso; e
outros que lhe são mais ou menos superiores sob todos os aspectos. Nos
mundos inferiores a existência é toda material, as paixões reinam soberanas,
a vida moral é quase nula. À medida que esta se desenvolve, diminui a
influência da matéria, de tal maneira que, nos mundos mais adiantados, a vida
é, a bem dizer, toda espiritual.
4. Nos mundos intermédios, misturam-se o bem e o mal, predominando um ou outro, conforme o grau de adiantamento das criaturas que os habitam. Embora
não se possa fazer, dos diferentes mundos, uma classificação absoluta, pode
se, todavia, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem,
tomando por base os matizes mais salientes, dividi-los, de modo geral, como
se segue: mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma
humana; mundos de expiação e de provas, onde predomina o mal; mundos de
regeneração, nos quais as almas que ainda têm que expiar haurem novas
forças, repousando das fadigas da luta; mundos felizes, onde o bem sobrepuja
o mal; mundos celestes ou divinos, morada dos Espíritos depurados, no qual
reina exclusivamente o bem. A Terra pertence à categoria dos mundos de
expiação e de provas, razão por que aí o homem está exposto a tantas misérias.
5. Os Espíritos que encarnam em um mundo não se acham presos a ele
indefinidamente nem nele realizam todas as fases do progresso que lhes
cumpre percorrer, para atingir à perfeição. Quando, em um mundo, eles
alcançaram o grau de adiantamento que esse mundo comporta, passam para
outro mais adiantado, e assim por diante, até que cheguem ao estado de
Espíritos puros. São outras tantas estações, em cada uma das quais eles
encontram elementos de progresso proporcionais ao seu adiantamento. Para
os Espíritos, é uma recompensa passarem a um mundo de ordem mais elevada,
como é um castigo prolongarem sua permanência em um mundo infeliz ou
serem relegados para outro ainda mais desventurado do que aquele que são
forçados a deixar, quando se obstinaram no mal. Destinação da Terra. Causa das misérias terrenas 6. Muitos se admiram de que haja tanta maldade na Terra e tantas paixões
grosseiras, tantas misérias e enfermidades de toda natureza, e daí concluem
que a espécie humana é uma coisa muito triste. Esse julgamento provém do
ponto de vista acanhado em que se colocam os que o emitem e que lhes dá
uma falsa ideia do conjunto. Deve-se considerar que na Terra não está a
Humanidade toda, mas apenas uma pequena fração. Com efeito, a espécie
humana compreende todos os seres dotados de razão que povoam os
inumeráveis mundos do Universo. Ora, que é a população da Terra, em face
da população total desses mundos? Muito menos que a de um lugarejo em
relação à de um grande império. A situação material e moral da Humanidade
terrena nada tem que espante, desde que se leve em conta a destinação da Terra
e a natureza dos seres que a habitam.
7. Faria dos habitantes de uma grande cidade ideia completamente falsa quem os julgasse pela população de seus bairros mais ínfimos e sórdidos. Num
hospital, só se veem doentes e estropiados; numa penitenciária, veem-se
reunidas todas as torpezas, todos os vícios; nas regiões insalubres, a maioria
dos habitantes são pálidos, franzinos e enfermiços. Pois bem: figure-se a Terra
como um subúrbio, um hospital, uma penitenciária, uma região insalubre, pois
ela é simultaneamente tudo isso, e compreender-se-á por que as aflições
sobrepujam os prazeres, já que não se mandam para o hospital os que se acham
com boa saúde nem para as casas de correção os que não praticaram mal
algum, visto que nem os hospitais nem as casas de correção são lugares de
delícias. Ora, assim como numa cidade, a população não se encontra toda nos hospitais ou nas prisões, também na Terra não está a Humanidade inteira. E, do mesmo modo que saímos do hospital quando estamos curados, e da prisão quando cumprimos a pena, o homem deixa a Terra por mundos mais felizes, quando está curado de suas enfermidades morais. Instruções dos Espíritos Mundos inferiores e mundos superiores 8. A qualificação de mundos inferiores e mundos superiores é mais relativa do
que absoluta. Tal mundo é inferior ou superior com relação aos que lhe estão
acima ou abaixo, na escala progressiva. Tomando a Terra como ponto de comparação, pode-se fazer ideia do estado
de um mundo inferior, supondo os seus habitantes na condição das raças selvagens ou
das nações bárbaras que ainda se encontram na sua superfície, e que são resquícios do
estado primitivo do nosso globo. Nos mais atrasados, os seres que os habitam são de
certo modo rudimentares. Têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza. Seus
instintos não são abrandados por qualquer sentimento de delicadeza ou de
benevolência nem pelas noções do justo e do injusto. A força bruta constitui sua única
lei. Sem indústrias e invenções, os habitantes passam a vida na conquista de
alimentos. Deus, todavia, não abandona nenhuma de suas criaturas; no fundo das
trevas da inteligência jaz, latente e mais ou menos desenvolvida, a vaga intuição de
um Ser supremo. Esse instinto é suficiente para torná-los superiores uns aos outros e
para lhes preparar a ascensão a uma vida mais completa, visto que não são seres
degredados, mas crianças em crescimento.
Entre os degraus inferiores e os mais elevados, há inúmeros outros, sendo
difícil reconhecer, entre os Espíritos puros, desmaterializados e resplandecentes de
glória, aqueles que animaram os seres primitivos, do mesmo modo que no homem
adulto custamos a reconhecer o embrião. 9. Nos mundos que chegaram a um grau superior, as condições da vida moral e material são muito diferentes das que encontramos na Terra. A forma do corpo
é sempre, como por toda parte, a humana, mas embelezada, aperfeiçoada e,
sobretudo, purificada. O corpo nada tem da materialidade terrestre e não está,
por conseguinte, sujeito às necessidades, nem às doenças ou deteriorações
decorrentes da predominância da matéria. Os sentidos, mais apurados, têm
percepções que a natureza dos nossos órgãos sufoca. A leveza específica do
corpo permite locomoção mais rápida e fácil: em vez de se arrastar
penosamente pelo solo, desliza, a bem dizer, na superfície ou plana na
atmosfera, sem outro esforço que o da vontade, conforme são representados
os anjos ou como os Antigos imaginavam os manes nos Campos Elíseos. Os
homens conservam, a seu bel-prazer, os traços de suas migrações passadas e
se mostram a seus amigos tais quais estes os conheceram, mas iluminados por
uma luz divina, transfigurados pelas impressões interiores, então sempre
elevadas. Em lugar de semblantes descorados, abatidos pelos sofrimentos e
paixões, a inteligência e a vida irradiam esse brilho que os pintores traduziram
pelo nimbo ou auréola dos santos.
A pouca resistência que a matéria oferece a Espíritos já muito adiantados
torna rápido o desenvolvimento dos corpos e curta ou quase nula a infância. A vida,
isenta de cuidados e de angústias, é proporcionalmente muito mais longa do que na
Terra. Em princípio, a longevidade guarda proporção com o grau de adiantamento dos
mundos. A morte nada tem dos horrores da decomposição; longe de causar pavor, é
considerada uma transformação feliz, porque em tais mundos não existe a dúvida
sobre o futuro. Durante a vida, a alma, já não estando encerrada na matéria compacta,
irradia e goza de uma lucidez que a coloca em estado quase permanente de
emancipação, permitindo a livre transmissão do pensamento. 10. Nesses mundos venturosos, as relações, sempre amistosas entre os povos,
jamais são perturbadas pela ambição, da parte de qualquer deles, de escravizar
o seu vizinho, nem pela guerra que daí decorre. Não há senhores, nem
escravos, nem privilegiados pelo nascimento; só a superioridade moral e
intelectual estabelece diferença entre as condições e dá a supremacia. A
autoridade merece o respeito de todos, porque somente ao mérito é conferida
e se exerce sempre com justiça. O homem não procura elevar-se acima do
homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se. Seu objetivo é galgar à
categoria dos Espíritos puros, não lhe constituindo um tormento esse desejo,
porém, uma ambição nobre, que o induz a estudar com ardor para igualar-se a
eles. Lá, todos os sentimentos delicados e elevados da natureza humana se
acham engrandecidos e purificados; desconhecem-se os ódios, os mesquinhos
ciúmes, as baixas cobiças da inveja; um laço de amor e fraternidade prende
uns aos outros todos os homens, ajudando os mais fortes aos mais fracos.
Possuem bens, em maior ou menor quantidade, conforme os tenham
adquirido, mais ou menos por meio da inteligência; ninguém, todavia, sofre,
por lhe faltar o necessário, uma vez que ninguém se acha em expiação. Numa
palavra: o mal, nesses mundos, não existe.
11. No vosso, precisais do mal para sentirdes o bem; da noite, para admirardes a luz; da doença, para apreciardes a saúde. Naqueles outros não há necessidade desses contrastes. A eterna luz, a eterna beleza e a eterna serenidade da alma proporcionam uma alegria eterna, livre de ser perturbada pelas angústias da
vida material, ou pelo contato dos maus, que lá não têm acesso. Isso o que o
espírito humano maior dificuldade encontra para compreender. Ele foi
bastante engenhoso para pintar os tormentos do inferno, mas nunca pôde
imaginar as alegrias do céu. Por quê? Porque, sendo inferior, só há
experimentado dores e misérias, jamais entreviu as claridades celestes; não
pode, pois, falar do que não conhece. À medida, porém, que se eleva e depura,
o horizonte se lhe dilata e ele compreende o bem que está diante de si, como
compreendeu o mal que lhe está atrás.
12. Entretanto, os mundos felizes não são orbes privilegiados, visto que Deus não é parcial para qualquer de seus filhos; a todos dá os mesmos direitos e as
mesmas facilidades para chegarem a tais mundos. Fá-los partir todos do
mesmo ponto e a nenhum dota melhor do que aos outros; a todos são
acessíveis as mais altas categorias: apenas lhes cumpre conquistá-las pelo seu
trabalho, alcançá-las mais depressa, ou permanecer inativos por séculos de
séculos no lodaçal da Humanidade. (Resumo do ensino de todos os Espíritos
superiores.) Mundos de expiações e de provas 13. Que vos direi dos mundos de expiações que já não saibais, pois basta observeis o em que habitais? A superioridade da inteligência, em grande número dos
seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à
encarnação dos Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As
qualidades inatas que eles trazem consigo constituem a prova de que já
viveram e realizaram certo progresso. Mas também os numerosos vícios a que
se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por
isso os colocou Deus num mundo ingrato, para expiarem aí suas faltas,
mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que haja merecido ascender
a um planeta mais ditoso.
14. Entretanto, nem todos os Espíritos que encarnam na Terra vão para aí em
expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de Espíritos que
apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso
de educação, para se desenvolverem pelo contato com Espíritos mais
adiantados. Vêm depois as raças semicivilizadas, constituídas desses mesmos
Espíritos em via de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da
Terra, que aí se elevaram pouco a pouco em longos períodos seculares,
algumas das quais hão podido chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos
povos mais esclarecidos. Os Espíritos em expiação, se nós podemos exprimir dessa forma, são exóticos na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons. Tiveram de ser degredados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes.
Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios
da vida. É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas
contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais
embotado. 15. A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de
lugar de exílio para Espíritos rebeldes à Lei de Deus. Esses Espíritos têm aí
de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a
inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente
desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus,
em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso
do Espírito. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.) Mundos regeneradores 16. Entre as estrelas que cintilam na abóbada azul do firmamento, quantos mundos não haverá como o vosso, destinados pelo Senhor à expiação e à provação!
Mas também os há mais miseráveis e melhores, como os há de transição, que
se podem denominar de regeneradores. Cada turbilhão planetário, a deslocar
se no Espaço em torno de um centro comum, arrasta consigo seus mundos
primitivos, de exílio, de provas, de regeneração e de felicidade. Já se vos há
falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda
ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus,
senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos revelou de
que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah! há as que
sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses
mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e
voltam dignas da glória que lhes fora destinada.
17. Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes. A alma penitente encontra neles a calma e o repouso e acaba por depurar-se. Sem dúvida, em tais mundos o homem ainda se acha sujeito
às leis que regem a matéria; a Humanidade experimenta as vossas sensações
e desejos, mas liberta das paixões desordenadas de que sois escravos, isenta
do orgulho que impõe silêncio ao coração, da inveja que a tortura, do ódio que
a sufoca. Em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita equidade
preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para
Ele, cumprindo-lhe as leis.
Nesses mundos, todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas a aurora da felicidade. O homem lá é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados. Ainda tem de suportar provas, porém, sem as pungentes angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são bastante ditosos e muitos dentre vós se alegrariam de habitá-los, pois que eles representam a calma após a tempestade, a convalescença após a moléstia cruel. Contudo, menos absorvido pelas coisas materiais, o homem divisa, melhor do que vós, o futuro; compreende a existência de outros gozos prometidos pelo Senhor aos que deles se mostrem dignos, quando a morte lhes houver de novo ceifado os corpos, a fim de lhes outorgar a verdadeira vida. Então, liberta, a alma pairará acima de todos os horizontes. Não mais sentidos materiais e grosseiros; somente os sentidos de um perispírito puro e celeste, a aspirar as emanações do próprio Deus, nos aromas de amor e de caridade que do seu seio emanam.
18. Mas, ah! nesses mundos, ainda falível é o homem e o espírito do mal não há perdido completamente o seu império. Não avançar é recuar, Há muitas moradas na casa de meu Pai 65 e, se o homem não se houver firmado bastante na senda do bem, pode recair nos mundos de expiação, onde, então, novas e mais terríveis provas o aguardam. Contemplai, pois, à noite, à hora do repouso e da prece, a abóbada azulada e, das inúmeras esferas que brilham sobre as vossas cabeças, indagai de vós mesmos quais as que conduzem a Deus e pedi lhe que um mundo regenerador vos abra seu seio após a expiação na Terra. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.)
Progressão dos mundos
19. O progresso é Lei da Natureza. A essa lei todos os seres da Criação, animados e inanimados, foram submetidos pela bondade de Deus, que quer que tudo se engrandeça e prospere. A própria destruição, que aos homens parece o termo final de todas as coisas, é apenas um meio de se chegar, pela transformação, a um estado mais perfeito, visto que tudo morre para renascer e nada sofre o aniquilamento.
Ao mesmo tempo que todos os seres vivos progridem moralmente, progridem materialmente os mundos em que eles habitam. Quem pudesse acompanhar um mundo em suas diferentes fases, desde o instante em que se aglomeraram os primeiros átomos destinados a constituí-lo, vê-lo-ia a percorrer uma escala incessantemente progressiva, mas de degraus imperceptíveis para cada geração, e a oferecer aos seus habitantes uma morada cada vez mais agradável, à medida que eles próprios avançam na senda do progresso. Marcham assim, paralelamente, o progresso do homem, o dos animais, seus auxiliares, o dos vegetais e o da habitação, porquanto nada em a Natureza permanece estacionário. Quão grandiosa é essa ideia e digna da majestade do Criador! Quanto, ao contrário, é mesquinha e indigna do seu poder a que concentra a sua solicitude e a sua providência no imperceptível grão de areia, que é a Terra, e restringe a Humanidade aos poucos homens que a habitam!
Segundo aquela lei, este mundo esteve material e moralmente num estado inferior ao em que hoje se acha e se alçará sob esse duplo aspecto a um grau mais elevado. Ele há chegado a um dos seus períodos de transformação, em que, de orbe expiatório, mudar-se-á em planeta de regeneração, onde os homens serão ditosos, porque nele imperará a Lei de Deus. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.)




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