O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec (tradução de Guillon Ribeiro)
- Bons Espiritas - Grupo de Estudos Manoel dos Ramos

- 12 de out. de 2025
- 16 min de leitura
Capítulo 4 Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo Ressurreição e reencarnação - A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe - Instruções dos Espíritos: Limites da encarnação – Necessidade da encarnação. 1. Jesus, tendo vindo às cercanias de Cesareia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: “Que dizem os homens com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que Eu sou?” — Eles lhe responderam: “Dizem uns que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas.” — Perguntou lhes Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” — Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” — Replicou-lhe Jesus: “Bem aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.” (Mateus, 16:13 a 17; Marcos, 8:27 a 30.) 2. Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso, porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que um dos antigos profetas ressuscitara. Disse então Herodes: “Mandei cortar a cabeça a João Batista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?” — E ardia por vê-lo. (Marcos, 6:14 a 16; Lucas, 9:7 a 9.) 3. (Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” — Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas, mas Eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem.” — Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que Ele falara. (Mateus, 17:10 a 13; Marcos, 9:11 a 13.) Ressurreição e reencarnação 4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de
ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não
acreditavam nisso. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros,
não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções
acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera
podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se.
Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama
reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá ideia de voltar à vida o corpo que já está
morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os
elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A
reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo
especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra
ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas.
Se, portanto, segundo a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia
ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João,
pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado. 5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos
judeus — que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: “Mestre, sabemos que vieste
da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia
fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.”
Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o
Reino de Deus se não nascer de novo.”
Disse-lhe Nicodemos: “Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar
a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?”
Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não
renasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. — O que é nascido
da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. — Não te admires de que
Eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. — O Espírito sopra onde quer e ouves
a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo
homem que é nascido do Espírito.”
Respondeu-lhe Nicodemos: “Como pode isso fazer-se?” — Jesus lhe
observou: “Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade,
em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho,
senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. Mas se não me
credes quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis quando vos fale das
coisas do céu?” (João, 3:1 a 12.) 6. A ideia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver
na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas
acima reproduzidas (itens 1, 2, 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera
deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, Ele a sanciona
com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária
quando diz: “Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.” E insiste,
acrescentando: “Não te admires de que Eu te haja dito ser preciso nasças de novo.”
7. Estas palavras: Se um homem não renasce da água e do Espírito foram
interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo,
porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que
nalgumas traduções as palavras — do Espírito — foram substituídas pelas
seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento.
Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram
lugar, como se comprovará um dia, sem equívoco possível.
8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se
atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que
lhe é própria. Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências
físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água
como elemento gerador absoluto. Assim é que em Gênesis, capítulo 1, se lê: “O
Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; Que o firmamento
seja feito no meio das águas; Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em
um só lugar e que apareça o elemento árido; Que as águas produzam animais vivos
que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.”
Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como
o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem não renasce da
água e do Espírito, ou em água e em Espírito”, significam pois: “Se o homem não
renasce com seu corpo e sua alma.” É nesse sentido que a princípio as
compreenderam.
Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é nascido
da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma
distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica
claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste. 9. O Espírito sopra onde quer; ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele
vem, nem para onde vai: pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que
dá vida a quem ele quer, ou da alma do homem. Nesta última acepção — “não
sabes donde ele vem, nem para onde vai” — significa que ninguém sabe o que
foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo
tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o
começo. Como quer que seja, essa passagem consagra o princípio da preexistência
da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.
10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o Reino dos Céus
é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; pois que assim o
profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. Se quiserdes compreender
o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Ouça-o aquele que tiver ouvidos
de ouvir. (Mateus, 11:12 a 15.)
11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em
João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já
não acontece com esta passagem de Mateus, que não permite equívoco: ele mesmo
é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva.
— “Desde o tempo de João Batista até o presente o Reino dos Céus é tomado pela
violência.” Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia
naquele momento? Jesus as explica, dizendo: “Se quiserdes compreender o que
digo, ele mesmo é o Elias que há de vir.” Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus
alude à época em que João vivia com o nome de Elias. “Até o presente o Reino
dos Céus é tomado pela violência”: outra alusão à violência da lei mosaica, que
ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra
Prometida, Paraíso dos Hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha
pela caridade e pela brandura.
E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que
Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de
compreender certas verdades. 12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo;
aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso
sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai
sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes.
(Isaías, 26:19.)
13. É também muito explícita esta passagem de Isaías: “Aqueles do
vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo.” Se o profeta houvera
querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que
tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem,
e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um
contrassenso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido
de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem,
em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.
14. Mas quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo,
separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? — Tendo morrido uma
vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os
dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (Jó, 14:10 e 14. Tradução
de Lemaistre de Sacy.) Quando o homem morre, perde toda a sua força, expira. Depois, onde está
ele? — Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate,
até que venha alguma mutação? (Idem. Tradução protestante de Osterwald.)
Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha
existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (Idem. Versão da
Igreja grega.) 15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se
acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Jó haja querido falar da
regeneração pela água do batismo, que ele decerto não conhecia. “Tendo o homem
morrido uma vez, poderia reviver de novo?” A ideia de morrer uma vez, e de reviver
implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais
explícita, se é que isso é possível: “Acabando os dias da minha existência terrena,
esperarei, porquanto a ela voltarei”, ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro,
como se alguém dissesse: “Saio de minha casa, mas a ela tornarei.”
“Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que
se dê a minha mutação.” Jó, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava
contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega,
esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: “Quando a minha
existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei.” Jó como que se coloca,
após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará
o momento de voltar.
16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o
princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus,
ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que
negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras,
quando forem meditadas sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas
quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.
17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de
vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando se
trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade
absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como Lei da
Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer,
material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela
pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e
justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta.
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são
ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado
lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes
restituirá o sentido verdadeiro. A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe 18. Os laços de família não sofrem destruição alguma com a
reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais
fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.
No Espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição,
pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos,
esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação apenas momentaneamente os
separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos
que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até uns seguem a outros na encarnação,
vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de
trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem
por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam
pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os
retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda
do aperfeiçoamento. Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a
afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o
egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado
número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que
os liga.
Está bem-visto que aqui se trata de afeição real, de alma a alma, única que
sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas
pelos sentidos nenhum motivo têm para se procurarem no mundo dos Espíritos.
Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem
com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos
Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem
exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu. 19. A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da
simpatia anterior que as aproximou. Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter,
gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais
próximos, se costuma dizer que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma
verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram
essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de
servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se
melhoram pouco a pouco, ao contato dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes
dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatias se
esvaem. É desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos,
como se dá na Terra com as raças e os povos.
20. O temor de que a parentela aumente indefinidamente, em consequência
da reencarnação, é de fundo egoístico: prova, naquele que o sente, falta de amor
bastante amplo para abranger grande número de pessoas. Um pai, que tem muitos
filhos, ama-os menos do que amaria a um deles se fosse único? Mas tranquilizem-se
os egoístas: não há fundamento para semelhante temor. Do fato de um homem ter tido dez encarnações, não se segue que vá encontrar, no mundo dos Espíritos, dez pais,
dez mães, dez mulheres e um número proporcional de filhos e de parentes novos. Lá
encontrará sempre os que foram objeto da sua afeição, os quais se lhe terão ligado na
Terra, a títulos diversos, e, talvez, sob o mesmo título.
21. Vejamos agora as consequências da doutrina antirreencarnacionista. Ela,
necessariamente, anula a preexistência da alma. Sendo estas criadas ao mesmo tempo
que os corpos, nenhum laço anterior há entre elas, que, nesse caso, serão
completamente estranhas umas às outras. O pai é estranho a seu filho. A filiação das
famílias fica assim reduzida à só filiação corporal, sem qualquer laço espiritual. Não
há então motivo algum para quem quer que seja glorificar-se de haver tido por
antepassados tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ascendentes e
descendentes podem já se terem conhecido, vivido juntos, amado, e podem reunir-se
mais tarde, a fim de apertarem entre si os laços de simpatia. 22. Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas
fundamentais que decorrem da não reencarnação, a sorte das almas se acha
irrevogavelmente determinada, após uma só existência. A fixação definitiva da sorte
implica a cessação de todo progresso, pois desde que haja qualquer progresso já não
há sorte definitiva. Conforme tenham vivido bem ou mal, elas vão imediatamente para
a mansão dos bem-aventurados ou para o inferno eterno. Ficam assim, imediatamente
e para sempre, separadas e sem esperança de tornarem a juntar-se, de forma que pais,
mães e filhos, maridos e mulheres, irmãos, irmãs e amigos jamais podem estar certos
de se ver novamente; é a ruptura absoluta dos laços de família.
Com a reencarnação e progresso a que dá lugar, todos os que se amaram
tornam a encontrar-se na Terra e no Espaço e juntos gravitam para Deus. Se alguns
fraquejam no caminho, esses retardam o seu adiantamento e a sua felicidade, mas não
há para eles perda de toda esperança. Ajudados, encorajados e amparados pelos que
os amam, um dia sairão do lodaçal em que se enterraram. Com a reencarnação,
finalmente, há perpétua solidariedade entre os encarnados e os desencarnados, e, daí,
estreitamento dos laços de afeição.
23. Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem para o seu futuro de além-túmulo: primeira, o nada, de acordo com a doutrina materialista; segunda, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta; terceira, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; quarta, a individualidade, com progressão indefinita, conforme a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família se rompem por ocasião da morte e nenhuma esperança resta às almas de se encontrarem futuramente. Com a terceira, há para elas a possibilidade de se tornarem a ver, desde que sigam para a mesma região, que tanto pode ser o inferno como o paraíso. Com a pluralidade das existências, inseparável da progressão gradativa, há a certeza na continuidade das relações entre os que se amaram, e é isso o que constitui a verdadeira família.
Instruções dos Espíritos
Limites da encarnação
24. Quais os limites da encarnação?
A bem dizer, a encarnação carece de limites precisamente traçados, se
tivermos em vista apenas o envoltório que constitui o corpo do Espírito, dado que a
materialidade desse envoltório diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em
certos mundos mais adiantados do que a Terra, já ele é menos compacto, menos
pesado e menos grosseiro e, por conseguinte, menos sujeito a vicissitudes. Em grau
mais elevado, é diáfano e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau e
acaba por se confundir com o perispírito. Conforme o mundo em que é levado a viver,
o Espírito reveste o invólucro apropriado à natureza desse mundo.
O próprio perispírito passa por transformações sucessivas. Torna-se cada vez
mais etéreo, até a depuração completa, que é a condição dos puros Espíritos. Se
mundos especiais são destinados a Espíritos de grande adiantamento, estes últimos
não lhes ficam presos, como nos mundos inferiores. O estado de desprendimento em
que se encontram lhes permite ir a toda parte onde os chamem as missões que lhes
estejam confiadas.
Se se considerar do ponto de vista material a encarnação, tal como se verifica
na Terra, poder-se-á dizer que ela se limita aos mundos inferiores. Depende, portanto,
de o Espírito libertar-se dela mais ou menos rapidamente, trabalhando pela sua
purificação.
Deve também considerar-se que no estado de desencarnado, isto é, no
intervalo das existências corporais, a situação do Espírito guarda relação com a
natureza do mundo a que o liga o grau do seu adiantamento. Assim, na erraticidade, é
ele mais ou menos ditoso, livre e esclarecido, conforme está mais ou menos
desmaterializado. – São Luís. (Paris, 1859.) Necessidade da encarnação 25. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos
a sofrê-la?
A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles
possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus
lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a
exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo,
Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que
estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas
obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma
preferência, e toda preferência, uma injustiça; mas a encarnação, para todos os
Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando
iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que
desempenham com zelo essa tarefa transpõe rapidamente e menos penosamente os
primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao
contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal
seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade
da reencarnação e é quando se torna um castigo. – São Luís. (Paris, 1859.)
26. Nota. Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor essa diferença.
O escolar não chega aos estudos superiores da Ciência, senão depois de haver
percorrido a série das classes que até lá o conduzirão. Essas classes, qualquer que seja
o trabalho que exijam, são um meio de o estudante alcançar o fim, e não um castigo
que se lhe inflige. Se ele é esforçado, abrevia o caminho, no qual, então, menos
espinhos encontra. Outro tanto não sucede àquele a quem a negligência e a preguiça
obrigam a passar duplamente por certas classes. Não é o trabalho da classe que
constitui a punição; esta se acha na obrigação de recomeçar o mesmo trabalho.
Assim acontece com o homem na Terra. Para o Espírito do selvagem, que está
apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua
inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha
largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida
corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela
necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e
desgraçados. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente pelo seu progresso moral,
além de abreviar o tempo da encarnação material, pode também transpor de uma só
vez os degraus intermédios que o separam dos mundos superiores.
Não poderiam os Espíritos encarnar uma única vez em determinado globo e
preencher em esferas diferentes suas diferentes existências? Semelhante modo de ver
só seria admissível se, na Terra, todos os homens estivessem exatamente no mesmo
nível intelectual e moral. As diferenças que há entre eles, desde o selvagem ao homem
civilizado, mostram quais os degraus que têm de subir. A encarnação, aliás, precisa
ter um fim útil. Ora, qual seria o das encarnações efêmeras das crianças que morrem
em tenra idade? Teriam sofrido sem proveito para si, nem para outrem. Deus, cujas
leis todas são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Pela reencarnação no mesmo
globo, quis Ele que os mesmos Espíritos, pondo-se novamente em contato, tivessem
ensejo de reparar seus danos recíprocos. Por meio das suas relações anteriores, quis,
além disso, estabelecer sobre base espiritual os laços de família e apoiar numa lei
natural os princípios da solidariedade, da fraternidade e da igualdade.




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