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O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec (tradução de Guillon Ribeiro)

Capítulo 4 Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo Ressurreição e reencarnação - A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe - Instruções dos Espíritos: Limites da encarnação – Necessidade da encarnação. 1. Jesus, tendo vindo às cercanias de Cesareia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: “Que dizem os homens com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que Eu sou?” — Eles lhe responderam: “Dizem uns que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas.” — Perguntou lhes Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” — Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” — Replicou-lhe Jesus: “Bem aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.” (Mateus, 16:13 a 17; Marcos, 8:27 a 30.) 2. Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso, porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que um dos antigos profetas ressuscitara. Disse então Herodes: “Mandei cortar a cabeça a João Batista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?” — E ardia por vê-lo. (Marcos, 6:14 a 16; Lucas, 9:7 a 9.) 3. (Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” — Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas, mas Eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem.” — Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que Ele falara. (Mateus, 17:10 a 13; Marcos, 9:11 a 13.) Ressurreição e reencarnação 4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de

ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não

acreditavam nisso. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros,

não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções

acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera

podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se.

Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama

reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá ideia de voltar à vida o corpo que já está

morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os

elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A

reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo

especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra

ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas.

Se, portanto, segundo a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia

ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João,

pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado. 5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos

judeus — que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: “Mestre, sabemos que vieste

da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia

fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.”

Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o

Reino de Deus se não nascer de novo.”

Disse-lhe Nicodemos: “Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar

a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?”

Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não

renasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. — O que é nascido

da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. — Não te admires de que

Eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. — O Espírito sopra onde quer e ouves

a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo

homem que é nascido do Espírito.”

Respondeu-lhe Nicodemos: “Como pode isso fazer-se?” — Jesus lhe

observou: “Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade,

em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho,

senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. Mas se não me

credes quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis quando vos fale das

coisas do céu?” (João, 3:1 a 12.) 6. A ideia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver

na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas

acima reproduzidas (itens 1, 2, 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera

deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, Ele a sanciona

com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária

quando diz: “Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.” E insiste,

acrescentando: “Não te admires de que Eu te haja dito ser preciso nasças de novo.”

7. Estas palavras: Se um homem não renasce da água e do Espírito foram

interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo,

porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que

nalgumas traduções as palavras — do Espírito — foram substituídas pelas

seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento.

Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram

lugar, como se comprovará um dia, sem equívoco possível.

8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se

atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que

lhe é própria. Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências

físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água

como elemento gerador absoluto. Assim é que em Gênesis, capítulo 1, se lê: “O

Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; Que o firmamento

seja feito no meio das águas; Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em

um só lugar e que apareça o elemento árido; Que as águas produzam animais vivos

que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.”

Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como

o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem não renasce da

água e do Espírito, ou em água e em Espírito”, significam pois: “Se o homem não

renasce com seu corpo e sua alma.” É nesse sentido que a princípio as

compreenderam.

Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é nascido

da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma

distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica

claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste. 9. O Espírito sopra onde quer; ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele

vem, nem para onde vai: pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que

dá vida a quem ele quer, ou da alma do homem. Nesta última acepção — “não

sabes donde ele vem, nem para onde vai” — significa que ninguém sabe o que

foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo

tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o

começo. Como quer que seja, essa passagem consagra o princípio da preexistência

da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.

10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o Reino dos Céus

é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; pois que assim o

profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. Se quiserdes compreender

o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Ouça-o aquele que tiver ouvidos

de ouvir. (Mateus, 11:12 a 15.)

11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em

João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já

não acontece com esta passagem de Mateus, que não permite equívoco: ele mesmo

é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva.

— “Desde o tempo de João Batista até o presente o Reino dos Céus é tomado pela

violência.” Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia

naquele momento? Jesus as explica, dizendo: “Se quiserdes compreender o que

digo, ele mesmo é o Elias que há de vir.” Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus

alude à época em que João vivia com o nome de Elias. “Até o presente o Reino

dos Céus é tomado pela violência”: outra alusão à violência da lei mosaica, que

ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra

Prometida, Paraíso dos Hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha

pela caridade e pela brandura.

E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que

Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de

compreender certas verdades. 12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo;

aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso

sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai

sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes.

(Isaías, 26:19.)

13. É também muito explícita esta passagem de Isaías: “Aqueles do

vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo.” Se o profeta houvera

querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que

tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem,

e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um

contrassenso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido

de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem,

em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.

14. Mas quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo,

separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? — Tendo morrido uma

vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os

dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (Jó, 14:10 e 14. Tradução

de Lemaistre de Sacy.) Quando o homem morre, perde toda a sua força, expira. Depois, onde está

ele? — Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate,

até que venha alguma mutação? (Idem. Tradução protestante de Osterwald.)


Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha

existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (Idem. Versão da

Igreja grega.) 15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se

acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Jó haja querido falar da

regeneração pela água do batismo, que ele decerto não conhecia. “Tendo o homem

morrido uma vez, poderia reviver de novo?” A ideia de morrer uma vez, e de reviver

implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais

explícita, se é que isso é possível: “Acabando os dias da minha existência terrena,

esperarei, porquanto a ela voltarei”, ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro,

como se alguém dissesse: “Saio de minha casa, mas a ela tornarei.”

“Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que

se dê a minha mutação.” Jó, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava

contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega,

esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: “Quando a minha

existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei.” Jó como que se coloca,

após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará

o momento de voltar.

16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o

princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus,

ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que

negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras,

quando forem meditadas sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas

quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.

17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de

vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando se

trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade

absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como Lei da

Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer,

material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela

pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e

justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta.

Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são

ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado

lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes

restituirá o sentido verdadeiro. A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe 18. Os laços de família não sofrem destruição alguma com a

reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais

fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.

No Espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição,

pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos,

esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação apenas momentaneamente os

separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos

que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até uns seguem a outros na encarnação,

vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de

trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem

por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam

pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os

retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda

do aperfeiçoamento. Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a

afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o

egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado

número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que

os liga.

Está bem-visto que aqui se trata de afeição real, de alma a alma, única que

sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas

pelos sentidos nenhum motivo têm para se procurarem no mundo dos Espíritos.

Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem

com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos

Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem

exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu. 19. A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da

simpatia anterior que as aproximou. Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter,

gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais

próximos, se costuma dizer que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma

verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram

essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de

servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se

melhoram pouco a pouco, ao contato dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes

dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatias se

esvaem. É desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos,

como se dá na Terra com as raças e os povos.

20. O temor de que a parentela aumente indefinidamente, em consequência

da reencarnação, é de fundo egoístico: prova, naquele que o sente, falta de amor

bastante amplo para abranger grande número de pessoas. Um pai, que tem muitos

filhos, ama-os menos do que amaria a um deles se fosse único? Mas tranquilizem-se

os egoístas: não há fundamento para semelhante temor. Do fato de um homem ter tido dez encarnações, não se segue que vá encontrar, no mundo dos Espíritos, dez pais,

dez mães, dez mulheres e um número proporcional de filhos e de parentes novos. Lá

encontrará sempre os que foram objeto da sua afeição, os quais se lhe terão ligado na

Terra, a títulos diversos, e, talvez, sob o mesmo título.

21. Vejamos agora as consequências da doutrina antirreencarnacionista. Ela,

necessariamente, anula a preexistência da alma. Sendo estas criadas ao mesmo tempo

que os corpos, nenhum laço anterior há entre elas, que, nesse caso, serão

completamente estranhas umas às outras. O pai é estranho a seu filho. A filiação das

famílias fica assim reduzida à só filiação corporal, sem qualquer laço espiritual. Não

há então motivo algum para quem quer que seja glorificar-se de haver tido por

antepassados tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ascendentes e

descendentes podem já se terem conhecido, vivido juntos, amado, e podem reunir-se

mais tarde, a fim de apertarem entre si os laços de simpatia. 22. Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas

fundamentais que decorrem da não reencarnação, a sorte das almas se acha

irrevogavelmente determinada, após uma só existência. A fixação definitiva da sorte

implica a cessação de todo progresso, pois desde que haja qualquer progresso já não

há sorte definitiva. Conforme tenham vivido bem ou mal, elas vão imediatamente para

a mansão dos bem-aventurados ou para o inferno eterno. Ficam assim, imediatamente

e para sempre, separadas e sem esperança de tornarem a juntar-se, de forma que pais,

mães e filhos, maridos e mulheres, irmãos, irmãs e amigos jamais podem estar certos

de se ver novamente; é a ruptura absoluta dos laços de família.

Com a reencarnação e progresso a que dá lugar, todos os que se amaram

tornam a encontrar-se na Terra e no Espaço e juntos gravitam para Deus. Se alguns

fraquejam no caminho, esses retardam o seu adiantamento e a sua felicidade, mas não

há para eles perda de toda esperança. Ajudados, encorajados e amparados pelos que

os amam, um dia sairão do lodaçal em que se enterraram. Com a reencarnação,

finalmente, há perpétua solidariedade entre os encarnados e os desencarnados, e, daí,

estreitamento dos laços de afeição. 23. Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem para o seu futuro de além-túmulo: primeira, o nada, de acordo com a doutrina materialista; segunda, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta; terceira, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; quarta, a individualidade, com progressão indefinita, conforme a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família se rompem por ocasião da morte e nenhuma esperança resta às almas de se encontrarem futuramente. Com a terceira, há para elas a possibilidade de se tornarem a ver, desde que sigam para a mesma região, que tanto pode ser o inferno como o paraíso. Com a pluralidade das existências, inseparável da progressão gradativa, há a certeza na continuidade das relações entre os que se amaram, e é isso o que constitui a verdadeira família. Instruções dos Espíritos

Limites da encarnação 24. Quais os limites da encarnação?

A bem dizer, a encarnação carece de limites precisamente traçados, se

tivermos em vista apenas o envoltório que constitui o corpo do Espírito, dado que a

materialidade desse envoltório diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em

certos mundos mais adiantados do que a Terra, já ele é menos compacto, menos

pesado e menos grosseiro e, por conseguinte, menos sujeito a vicissitudes. Em grau

mais elevado, é diáfano e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau e

acaba por se confundir com o perispírito. Conforme o mundo em que é levado a viver,

o Espírito reveste o invólucro apropriado à natureza desse mundo.

O próprio perispírito passa por transformações sucessivas. Torna-se cada vez

mais etéreo, até a depuração completa, que é a condição dos puros Espíritos. Se

mundos especiais são destinados a Espíritos de grande adiantamento, estes últimos

não lhes ficam presos, como nos mundos inferiores. O estado de desprendimento em

que se encontram lhes permite ir a toda parte onde os chamem as missões que lhes

estejam confiadas.

Se se considerar do ponto de vista material a encarnação, tal como se verifica

na Terra, poder-se-á dizer que ela se limita aos mundos inferiores. Depende, portanto,

de o Espírito libertar-se dela mais ou menos rapidamente, trabalhando pela sua

purificação.

Deve também considerar-se que no estado de desencarnado, isto é, no

intervalo das existências corporais, a situação do Espírito guarda relação com a

natureza do mundo a que o liga o grau do seu adiantamento. Assim, na erraticidade, é

ele mais ou menos ditoso, livre e esclarecido, conforme está mais ou menos

desmaterializado. – São Luís. (Paris, 1859.) Necessidade da encarnação 25. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos

a sofrê-la?

A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles

possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus

lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a

exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo,

Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que

estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas

obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma

preferência, e toda preferência, uma injustiça; mas a encarnação, para todos os

Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando

iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que

desempenham com zelo essa tarefa transpõe rapidamente e menos penosamente os

primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao

contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal

seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade

da reencarnação e é quando se torna um castigo. – São Luís. (Paris, 1859.)

26. Nota. Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor essa diferença.

O escolar não chega aos estudos superiores da Ciência, senão depois de haver

percorrido a série das classes que até lá o conduzirão. Essas classes, qualquer que seja

o trabalho que exijam, são um meio de o estudante alcançar o fim, e não um castigo

que se lhe inflige. Se ele é esforçado, abrevia o caminho, no qual, então, menos

espinhos encontra. Outro tanto não sucede àquele a quem a negligência e a preguiça

obrigam a passar duplamente por certas classes. Não é o trabalho da classe que

constitui a punição; esta se acha na obrigação de recomeçar o mesmo trabalho.

Assim acontece com o homem na Terra. Para o Espírito do selvagem, que está

apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua

inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha

largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida

corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela

necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e

desgraçados. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente pelo seu progresso moral,

além de abreviar o tempo da encarnação material, pode também transpor de uma só

vez os degraus intermédios que o separam dos mundos superiores.

Não poderiam os Espíritos encarnar uma única vez em determinado globo e

preencher em esferas diferentes suas diferentes existências? Semelhante modo de ver

só seria admissível se, na Terra, todos os homens estivessem exatamente no mesmo

nível intelectual e moral. As diferenças que há entre eles, desde o selvagem ao homem

civilizado, mostram quais os degraus que têm de subir. A encarnação, aliás, precisa

ter um fim útil. Ora, qual seria o das encarnações efêmeras das crianças que morrem

em tenra idade? Teriam sofrido sem proveito para si, nem para outrem. Deus, cujas

leis todas são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Pela reencarnação no mesmo

globo, quis Ele que os mesmos Espíritos, pondo-se novamente em contato, tivessem

ensejo de reparar seus danos recíprocos. Por meio das suas relações anteriores, quis,

além disso, estabelecer sobre base espiritual os laços de família e apoiar numa lei

natural os princípios da solidariedade, da fraternidade e da igualdade.


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